z. Eu Animal

.

.

Eu Animal – argumentos para um novo paradigma – cinema e ecologia

(manual de orientação ecológica)

I Animal – arguments for a new paradigmcinema and ecology

© Ilda Teresa de Castro & Zéfiro (colecção Nova Águia), 2015

ISBN: 978-989-677-126-3

.CapaSite copy

.

A Imagem Fílmica do Vivo

Refletir sobre o Vivo através da sua representação cinematográfica não é tarefa fácil, e no entanto, é talvez a forma mais eficaz para despertar as consciências para a urgência de repensar os valores existenciais.

Mas como definir o Vivo questiona Ilda Castro ? E qual é a sua relação com o Outro vivo, animal, vegetal ou até o cosmos? O que está aqui em causa é a história do Homem com aquilo que o rodeia. Da pura materialidade à capacidade de se projetar numa espiritualidade absoluta, o ser humano vê-se se confrontado com a condição consciente de si, do mal e da sua finitude. Talvez seja esse medo que gere nele uma necessidade de controlo desinsofrido do mundo, usando os outros seres vivos para o seu próprio interesse, esquecendo que ele próprio tem deveres para com o Outro vivo. O progresso industrial e consumista afasta o Homem da sua natureza espiritual e mergulha-o em crenças de necessidades artificiais, como a aquisição individualista de bens materiais.

As obras de Bresson, Tarkovski, Sokurov ou Belá Tarr obrigam o espetador a interrogar o porquê do desejo humano de omnipotência, esquecendo que o seu destino é igual ao dos outros seres vivos: isto é, nascer só e morrer só. Ilda Castro salienta a importância dos filmes de missão eco-crítica que utilizam a imagem sensorial para mostrar o vivo, isto é, a estética das sensações que toca o espetador, ora na sua beleza representativa (Home, 2009), ora no seu extremo horror (Earthlings, 2005). Os campos de concentração não desapareceram mas deslocaram-se: os deportados são hoje os animais. De facto, quem são os animais?

Em 1949, Georges Franju realizou Le sang des bêtes, um documentário sobre um matadoro em Paris. Apesar da crueza das imagens, a estética a preto e branco permite um distanciamento. É possível olhar para elas porque assumem-se mais como imagens e menos como espelho da realidade. Mas quando se trata de imagens que espelham a cor das atrocidades, a sua visão torna-se insuportável.

Na sua análise de Primavera, Verão, Outono, Inverno… Primavera de Kim Ki-duk, Ilda Castro toca o que há de mais profundo em nós: que pedra carregamos quando negamos a existência sensível do Outro, o maltratamos e até incorporamos?

Inês Gil

(Professora Associada da Escola de Comunicação, Artes e Tecnologias da Informação e Coordenadora do centro UNESCO Imagem, Som e Criatividade na Universidade Lusófona)

.

The Filmic Image of the Living

Reflecting about the Living through their cinematic representation is not easy, yet it is perhaps the most effective way to raise awareness on the urgency to rethink existential values. But, how to define the Living, questions Ilda Castro? And what is its relation with the Other living, animal, plant or even cosmos? What is here at stake is the history of Man with what surrounds him. From the pure materiality to the ability to project him in absolute spirituality, the human being faces the conscious condition of itself, of the evil and of his finitude. Perhaps it ´s this fear that generates his own need to a nonpainful world control, using other living beings for its own interests, forgetting that he also has duties to the Other living. The industrial and consumeristic progress separates Man from his spiritual nature, plunging him into beliefs of artificial needs, such as individualistic material acquisitions.

The works of Bresson, Tarkovsky, Sokurov or Bela Tarr force the spectator to question the reason of the human desire for omnipotence, forgetting that their destination is equal to the other living beings: that is, born alone and die alone. Ilda Castro points the -importance of the films with an ecocritical mission, that use the sensory image to show the living, that is, the aesthetic sensations that touches the spectator, as well in its representative beauty (Home, 2009), as in its extreme horror (Earthlings, 2005). The concentration camps have not disappeared but have shifted: nowadays the deportees are the animals. In fact, who are the animals?

In 1949, Georges Franju made Le sang des bêtes, a documentary about a slaughterhouse in Paris. Despite the crudeness of the images, the black and white aesthetic allows a detachment. It is possible to look at them because they are assumed more as images and less as a mirror of reality. But when it comes to images that reflect the colour of the atrocities, its vision becomes unbearable.

In its analysis of Spring, Summer, Fall, Winter … Spring, by Kim Ki-duk, Ilda Castro touches what is deepest in us: what stone do we carry when do we deny the sensitive existence of the Other, mistreat and even incorporate him?

*Inês Gil is Associate Professor of the School of Communication, Arts and Information Technologies and Coordinator of the center UNESCO  Image, Sound and Creativity at the University Lusophone.

 

No Seio da Terra e do Unimultiverso

Esta obra de Ilda Teresa de Castro destaca-se por, abrindo a área da ecocrítica fílmica numa vasta investigação interdisciplinar, habitar plenamente a vanguarda do nosso tempo no que respeita a questionar o paradigma antropocêntrico dominante e apontar vias para a sua mudança. Mediante uma arqueologia do Vivo na história do Ocidente, mostra a conexão entre as representações antropocêntricas, as leituras mecanicistas da vida na Terra e a crise ecosocial contemporânea, apresentando as principais emergências alternativas, no domínio da ecoespiritualidade, da filosofia, da ciência e do cinema, bem como dos vários movimentos do activismo contemporâneo.

Estamos perante uma obra importante, no plano científico e cultural, na medida em que alia o largo fôlego da investigação, o rigor e a sensibilidade hermenêuticos e a síntese das principais propostas contemporâneas para uma nova cultura e uma nova civilização, assentes na experiência e na evidência da interconexão entre todos os seres e formas de vida no seio da Terra e do unimultiverso. O título, Eu Animal, é uma feliz sugestão do reequacionamento em curso da subjectividade humana no seio de tudo o que é vivo e animado. Com efeito, do mesmo modo que a raiz da crise contemporânea, que nos ameaça com um colapso ecológico-social sem precedentes, radica na ficção de um sujeito humano ontologicamente dotado de uma realidade substancial, supostamente independente da comunidade dos viventes e da totalidade planetária e cósmica, também os caminhos da sua superação passam irrecusavelmente pela reinvenção ou redescoberta dessa subjectividade como um fluxo de relações metamórficas, inseparáveis da orgânica tessitura da consciência, da vida e da matéria. Intuímos que, também movido pelo próprio progresso da ciência ocidental, o futuro conferirá crescente e renovado crédito às mais antigas tradições sapienciais planetárias e indígenas no sentido de superarmos as compartimentações estanques do humano desvelando em seu lugar a multidimensionalidade de um ser polimórfico, simultaneamente animal-humano-divino-vegetal-mineral.

Este livro de Ilda Teresa de Castro é um excelente roteiro para esse futuro já presente. Por isso lhe estamos gratos.

Paulo Borges

(Professor Auxiliar do Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, vice-presidente da Assembleia da Sociedade de Ética Ambiental, e presidente do Círculo do Entre-Ser, associação Filosófica e Ética)

.

Within the Earth and the Unimultiverso

This work of Ilda Teresa de Castro stands out for, opening the field of film ecocriticism on a wide interdisciplinary research, fully inhabit the forefront of our time regarding to question the dominant anthropocentric paradigm and pointing out ways for it to shift. Through an archaeology of the Living in Western history, shows the connection between anthropocentric representations, the mechanistic readings of life on Earth and the contemporary ecosocial crisis, presenting the main alternatives emergencies in the area of ecoespiritualidade, philosophy, science and cinema, as well as the various movements of modern activism.

This is an important work in the scientific and cultural level, which combines the wide breath of research, the accuracy and hermeneutical sensitivity and the summary of the main contemporary proposals for a new culture and a new civilization, based on the experience and evidence of the interconnectedness of all beings and life forms within the Earth and unimultiverso. The title, I Animal, is a happy suggestion of the actual re-equation of human subjectivity within all that is alive and lively. Indeed, just as the root of the contemporary crisis which threatens us with an unprecedented ecological and social collapse, is structured in the fiction of a human subject ontologically endowed with a substantial reality, supposedly independent from the living community and planetary and cosmic whole, also the ways to overcome that pass by the reinvention or rediscovery of this subjectivity as a stream of metamorphic relations, inseparable from the organic tessitura of consciousness, life and matter. We intuit, that also moved by the very progress of Western science, the future will give increased and renewed credit to the oldest planetary wisdom and indigenous traditions, in order that we overcome the strict separations of the human, instead revealing the multidimensionality of a polymorphic being simultaneously animal- human-divine-vegetable-mineral. This Ilda Teresa de Castro book is an excellent roadmap for this future already present. So we are grateful.

Paulo Borges

(Auxiliary Professor in the Philosophy Department of the University of Lisbon, vice-president of the Assembly of Environmental Ethics Society and presidente do Círculo do Entre-Ser, Ethic and Philosophical Association)

 

.

.

contra-capa

..

588 páginas – edição ilustrada a preto e branco – caderno de 8 páginas de fotos a cor – p.v.p. 28 euros

contacto para envio por correio : animaliavegetaliamineralia(at)gmail.com

.

ÍNDICE

Prefácio 13

I — uma arqueologia do vivo 21

I.1. do Animal 23

Stalker, de Andrej Tarkovsky, (1971) e Le Rayon Vert,
 de Eric Rohmer, (1986) 36

Francesco giullare di Dio, de Roberto Rossellini, (1950) 53

I.1.1. L ́aperto. L ́uomo e l ́animale 57

Baraka, de Ron Fricke, (1992) 68

I.2. Unwelt e Innenwelt — passeios por mundos incognoscíveis
 de Jacob Von Uexkull 77

I.3. do Animal no perspectivismo amazónico 83

I.4. Juridicus Animalia 91

I.5. a defesa dos direitos dos animais 97

I.6. Domínio cosmobiológico 109

I.6.1. a Lógica das Similitudes 109

Spring, Summer, Fall, Winter …and Spring,
 de Kim ki-duk, (2003) 113

The River, de Jean Renoir, (1951) 119

I.7. Domínio ecológico 123

I.7.1. a Natureza pode ser sujeito de direito? 133

I.7.2. a ecologia superficial 135

An Inconvenient Truth, de Davis Guggenheim, (2006) 139

The 11th Hour, de Leila Conners Petersen e Nadia Conners,
(2007) 144

Home, de Arthus-Bertrand (2009) 149

I.7.3. o movimento de libertação animal 157

Meat the Truth, de Gertan Zwanikken, (2008) 160

I.7.4. a ecologia profunda 165

I.7.4.1. a ética da Terra 179

I.7.4.2. Direitos da Natureza – Derechos de la Madre Tierra 185

I.7.5. criticas da modernidade e o eco-nazismo 195

I.7.6. o ecofeminismo 211

I.7.6.1. androcentrismo versus antropocentrismo 219

I.7.7. a linguagem do mundo natural 231

I.7.7.1. o silogismo planta 234

anexo I notas capítulo I − 245

II — as novas abordagens científicas e filosóficas do Vivo 251

II.1.1. a sinergia de Buckminster Fuller 261

II.1.2. a rugosidade da Natureza de Benoit Mandelbrot 267

II.1.3. o efeito borboleta de Edward Lorenz 271

II.1.4. a teoria quântica de David Bohm 275

II.1.5. a nova aliança de Ilya Prigogine e Isabelle Stengers 283

II.1.6. a ressonância mórfica e os campos mórficos de Sheldrake 291

II.1.7. Mary Migdley, mitos e mito da criação 295

II.1.8. a teoria do conhecimento de Varela e Maturana 301

II.1.9. Joanna Macy, a grande viragem 307

II.1.10. a sustentação da teia da vida, de Frijot Capra 311

Mindwalk, de Bernt Capra, (2009) 314

II.2. a hipótese Gaia: uma metáfora significante 325

II.2.1. Mary Catherine Bateson e Mary Migdley,

a empatia como modo de conhecimento 335

Solaris, de Andrej Tarkovsky, (1972) 342

Avatar, de James Cameron, (2009) 348

II.3. a ecologia da mente e das ideias, de Gregory Bateson 361

Encounters at the End of the World, de Werner Herzog, (2007) 380

II.4. as três ecologias de Félix Guattari 387

Fumaça Química, Discovery Communications, Inc., (2007) 398

II.4.1. utopias concretas de Stephan Barron e Bernard Stiegler 401

II.4.2. ética do amor em mise-en-abîme 417

anexo II notas capítulo II − 423

III sobre cinema e empatia 441

Au Hasard Baltazar, de Robert Bresson, (1966) 463

Damnation, de Béla Tarr, (1987) 468

III.1. processos de espelhamento e neurónios-espelho 473

III.2. uma redefinição de fronteiras 493

III.3. uma nova história do humano, um novo conceito de razão 495

Nanook of the North, de Robert Flaherty, (1922) 503

Earthlings, de Shaun Monson, (2005) e Nuit et Brouillard,
 de Alain Resnais, (1955) 514

Posfácio 531

Anexo notas capítulo III − 535

Filmografia 539

Bibliografia 547

Índice Onomástico 572

.

.

.

.